As vezes, na correria do dia-a-dia a gente deixa muita coisa "passar batido" e pensa que as crianças não percebem. Arrisco a dizer que de vez em quando a gente age de modo tão automático e distante que parece que elas não são pessoas que sentem e percebem o mundo, já reparou nisso?
Pequenas desatenções como não olhar no olho e conversar; não se deixar rolar no chão numa brincadeira; não atender a um chamando por estar respondendo àquela mensagem urgente do chefe, do cliente; ficar irritadiço por estar cansado ou sem tempo, mas ter disposição e tempo para amigos, redes sociais, para o futebol, para aquela cervejinha, tudo isso impacta na relação e pode significar falta de vínculo ou vínculos frágeis com os filhos.
E qual o problema disso? Nenhum. Inclusive é bem comum esse tipo de vínculo frágil durante os casamentos, e tudo bem, os filhos sobrevivem.
Problema mesmo, só quando alguém resolve despertar a atenção do seu filho para a sua desatenção em relação a ele, aí sim o "bicho pega", o que costuma ocorrer com mais força e frequência apenas no fim do casamento, aí sim, essa fragilidade costumar se transformar em um "prato cheio" para o alienador parental.
Saiba! Pequenas brechas, é tudo de que um alienador parental precisa para fazer um estrago bem grande e destruir a sua relação com seus filhos, devagarinho, sem que você perceba e quando a ficha finalmente cair o estrago já estará feito.
Elisabeth Bandinter, uma filósofa francesa escrevendo sobre amor materno afirma "que a ausência da faculdade de tocar, mimar ou beijar é pouco propícia ao desenvolvimento do sentimento" (amor materno). Para ela o amor materno não é natural, instintivo, inerente à maternidade, mas uma construção que pode se dar a partir do convívio diário, através do cuidado, do toque, da atenção e, portanto, se ao contrário, não existe toque, presença, cuidado, o amor não nasce, não cresce e até morre.
Partilho da mesma opinião e penso que o amor e vínculos tanto maternos quanto paternos se dão exatamente a partir da dessa dinâmica. Posso dizer sem medo de errar que o amor (de pai ou de mãe) se forma nos (e dos) pequenos detalhes, e assim ele cresce e se fortalece, por isso, se você neste momento ainda tem essa possibilidade, não abra mão de estar verdadeiramente na vida de seus filhos, ame, seja amado e como consequência "imunize-se" da alienação parental. Entenda que criança não precisa de muito para se vincular afetivamente a alguém, mas para que esse vínculo se forme, firme e duradouro, é necessário regularidade e muita disposição.
Se você é pai ou mãe e por algo motivo não vive ou deixará de viver sob o mesmo teto que seus filhos, comece já, a todos os dias, estar lá, presente, apesar do cansaço, apesar de todos os compromissos e dificuldades. Comece hoje mesmo a estruturar, (ou retomar, se for o caso), uma rotina que inclua seus filhos. É muito comum que pais quando do divórcio se "afastem" (ou se afastam mesmo, sem aspas) de tarefas que eram de sua responsabilidade antes do fim do casamento e isso impacta fortemente na convivência, e, quanto menores os filhos maior será o impacto desse distanciamento na formação e fortalecimento de vínculos com eles, o que facilita a quebra de vínculos afetivos e o afastamento parental.
Evidentemente que nem tudo em termos de alienação parental se resumirá ou se resolverá com presença, mas boa parte dos problemas podem ser evitados a partir dela e, se a alienação parental nunca entrar na sua vida, seus filhos sairão ganhando duplamente, ou por que não foram vítimas, ou por que tiveram um pai ou mãe presentes, participativos e responsáveis.
Portanto, se você tem algum tempo disponível aproveite e esteja presente. de verdade, se não tem muito, faça o seu pouco render, se multiplicar, por exemplo transformando momentos de pequenas obrigações diárias em momentos de diversão e afeto.
Perceba que eu não estou falando de qualquer tipo de convivência, não é estar de "corpo presente"com os filhos, me refiro a convivência com presença de verdade, é estar lá, na mesma hora e lugar que os filhos, na mesma atividade, com atenção e cuidado voltados para eles, por menor que seja a oportunidade. É fazer-se presente (no duplo sentido).
Entenda definitivamente que distante de você ou com um pai/mãe apenas fisicamente próximo, seu filho só terá aquilo que lhe disserem a seu respeito.
Não tenho dúvidas de que se existem algum remédio do qual você pode se utilizar contra a alienação parental, esse remédio se chama convivência, paternidade/maternidade ativa e responsável, que pode até não evitar que a alienação parental bata a sua porta, mas certamente servirá como espécie de antídoto contra ela.
Pense nisso!
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